Dia 07 – Fermé pour congés
Quanto mais tempo passamos de férias, mais cansados fisicamente ficamos. No Rio nunca teríamos esse ritmo. Sair todo dia durante duas semanas, leva a uma fadiga. Mas sempre vale a pena sair de férias. Toda vez que penso nas preparações necessárias para as férias, eu desanimo um pouco. Depois eu me lembro que nunca me arrenpedi de ter viajado, mesmo se alguma coisa dá errado, o balanço geral é sempre positivo.
O dia não amanheu prometendo muito. Céu nublado, vento… parecia que o verão tinha acabado em Paris. No verão aqui, agosto já começa o frio. Eu tinha pensado em talvez visitar o centro naturista perto de Paris, chamado Heliomonde, mas devia ter ido em julho. Agora, calor mesmo, só no verão de 2009…
Rue Daguerre
Almoçamos em casa mesmo e saímos para encontrar o Rui e assim conhecer seu apartamento. No caminho, numa rua próxima, essencialmente de comerciantes, reparei no grande número de cartazes avisando que o estabelecimento estava fechado para férias.
Este é um fenômeno bem francês: o comércio e quase tudo fecha para férias. Numa mesma rua contamos mais de 20 cartazes de férias. As padarias próximas têm que se arrumar para que pelo menos uma delas esteja sempre aberta e assim o francês não fique sem pão. É incrível ver restaurantes, lojas de roupas, sorveterias, etc, tudo fechado. Achar um restaurante recomendado é quase impossível. Vimos no “officiel des espetacles” que, numa pequena cidade próxima, até o único cinema fechou para férias.
Rui
Chegamos ao prédio do Rui, já entrar no elevador é difícil. Só cabem duas pessoas magras e apertadas. Muitos prédios em Paris são muito antigos e não têm elevador. Neste, o elevador foi posto no vão da escada, mínimo. O apartamento do Rui é bem pequeno, essencialmente um quarto, com um chuveiro improvisado e o vaso sanitário no corredor do prédio. A vista é bonita.
Gosto de conversar com ele, talvez até pelos delírios que ele se permite.
Sempre tem um papo muito “esotérico”, por assim dizer. Ele acredita, se entendi bem, que existe um conhecimento imanente. Toda a ciência ocidental não é conhecimento e apenas a “ciência tradicional”, sabe lá o que isso quer dizer, é sabedoria e conhecimento real. É divertido conversar sobre essas coisas, principalmente porque não vamos chegar a nenhuma conclusão. Ele dá seus palpites em tudo, dizendo, por exemplo, que os médicos não têm conhecimento, pois apenas testam os medicamentos nos pacientes e que a alternativa a isso seria esta “ciência tradicional”. Não explicou como isso funciona. O engraçado é quando ele se aventura no mundo da física. Quando fiz engenharia, eu estudei 4 físicas, desde a física clássica, que aprendemos as bases no segundo grau, até a física quântica. Mesmo não sendo um físico, eu tenho bases sólidas. Rui contesta todas as teorias, a alternativa sendo mais uma vez, a “ciência tradicional”, a sabedoria. Eu retrucava perguntando: E se toda a “ciência tradicional” estivesse errada, e apenas por pura ignorância eles acreditassem resolver os problemas? E se o certo fosse admitir que não podemos ter esse “conhecimento absoluto”? Obviamente, este papo não dá em nada, mas é divertido.
Pierre
Pierre, irmão do Jean-Luc ligou e, quando soube que estávamos lá, disse que vinha para nos encontrar. Quando ele chegou, vimos como ele estava mal: magro, acabado, parecendo que não tomava banho há vários dias e com cheiro de álcool. Durante a conversa, ele falou sobre seu problema com a bebida. Disse que não comia há 15 dias. Apesar da situação, o papo com ele foi agradável. Me pareceu ser um bom homem, que sucumbiu à depressão e à bebida. Sinceramente torço para que ele consiga uma saída Pelo menos ele admite que tem um problema. Se não fosse funcionário público, já seria um SDF (sem domicílio fixo, maneira politicamente correta de se chamar os mendigos). O risco que ele corre, se não se curar, é de ter o salário reduzido. Saímos para passear.
Passeando na chuva
A idéia era passear no cemitério de Montparnasse, mas ele já estava fechado. Como eu tinha que deixar um filme de slide preto e branco para revelar, resolvemos ir andando até a rua Notre Dame de Champs, para deixar o filme. Apesar da loja já estar fechada, podemos deixar o trabalho numa caixa e eles entregam tudo pronto no dia seguinte.
No caminho, o tempo era totalmente aleatório. Chovia e fazia sol. Chovia mais forte e logo em seguida o céu abria. Sorte que eu e a Ana tínhamos trazido guarda-chuva, mas tivemos que para algumas vezes debaixo de marquises, para poder se abrigar da chuva forte. Na entrada da rua, diversos garçons e cozinheiros estavam na sua pausa para cigarro.
Em 94, quando vim morar aqui, os restaurantes permitiam o cigarro, o que me levou uma vez a sair de um restaurante, pois o garçon me disse, quando perguntado se tinha área não fumante, que “na França fazemos como queremos”… Agora, em nenhum lugar fechado, restaurante loja ou escritório é permitido fumar.
Jardim de Luxemburgo
Depois de deixar o filme, aproveitando uma abertura no tempo, passeamos pelo jardim de Luxemburgo. Deu algumas boas imagens e filmei o brilho do sol entre as árvores.
Nos despedimos deles na frente do Jardim, pouco depois de ficar um bom tempo debaixo de uma marquise, para escapar de outra chuva forte.
Rui nos mostrou ali perto um bom lugar para se comer crepes. No final do passeio, Pierre parecia melhor, afinal tinham sido duas horas sem álcool. Nos disse que ia tentar preparar um jantar para a gente. Sentimos que o Rui não estava muito confortável com isso. Antes ele havia dito que a casa do Pierre estava muito suja, efeito da depressão. Bom, no dia seguinte Pierre ligou dizendo que não tinha conseguido forças para preparar o jantar e se desculpava por isso. Também disse que tinha marcado um médico para o próximo mês. Espero que ele consiga sair dessa. Ele é simpático, mas enfrenta um grande problema que, se não for curado, vai deixá-lo cada vez mais sozinho. Andamos perto do Panteão, procurando um bom restaurante para jantar.
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Jantando no Jardin d’Ivy
Nada estava aberto. Fomos andando até a rue Mouffetard, decididos a ir em restaurante do guia e torcendo para que ele estivesse aberto. Quando chegamos à rua, vimos na porta de um restaurante o adesivo do Guide du Routard. Vimos que tinha um menu a 14 euros, com pratos bem interassantes.
O restaurante se chama jardin d’Yvy (75 rue Mouffetard – 75005 Paris
Tél : 01.47.07.19.29
http://www.lejardindivy.com/), pois tem um jardim nos fundos. O ambiente é bem alegre. Eu pedi entrada e prato principal e Ana prato principal e sobremesa. A minha entrada era Ravioles de Ricota e espinafre. Meu parâmetro para ravioli é o ravioli de abóbora do Da Brambini… mas aí é covardia. O ravioli desse restaurante é melhor que a maioria dos restaurantes italianos que vamos no Rio, mas a massa não é tão boa quanto a do Brambini (mas pagamos mais caro no Brambini). O molho estava maravilhoso. No prato principal, eu pedi um filé com molho de roquefort e Ana frango. Neste caso os dois estavam maravilhosos. A sobremesa nós dividimos, também muito boa. É um restaurante recomendável, apesar de estar numa rua muito turística.
Pegamos o ônibus para ir até o centro da cidade para depois pegar o ônibus 29. No ponto dizia que o ônibus circulava até 23 horas, mas esperamos 40 minutos e ele não apareceu. Acabamos voltando de metrô. Nem sempre as informações nos pontos são confiáveis
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