Dia 2 de agosto – Aumentando minha ignorância.


Como tinha furado a Normandia, tivemos que procurar o que fazer de última hora. O Jean-Luc tinha nos convidado para passar um dia na casa dele, para comer com Rui e Manu. Antes a gente tinha dito que não estaríamos em Paris, mas devido à mudança de planos, ligamos e ele nos chamou para ir lá neste sábado, às 11 da manhã, para um “brunch”.

Gremlim

Chegando lá, o Rui e o Manu já estavam e conhecemos o filho mais novo do Jean-Luc, o Thomas.

Bom, existem crianças adoráveis neste mundo, calmas, fofinhas, que nos dão quase um desejo de ter filhos… o Thomas se encaixa apenas na categoria fofinhas, desde que você mantenha distância. Numa foto então, ele é fofíssimo. Até a Ana, normalmente calma com crianças, estava ficando irritada. No mais, foi bom conversar com os garotos e o Jean-luc, quando o pequeno gremlim permitia isso. O Jean-Luc preparou crepes com geléias muito gostosas, em especial uma de abobrinha, pimentão, gengibre e canela (as geléias são compradas num mercado). Pode parecer uma combinação estranha, mas era muito boa mesmo. Conversamos bastante sobre as diferenças entres os povos. Jean-Luc dá aulas de francês para estrangeiros e contou a história de um grupo de libaneses que reclamaram muito da frieza das relações entre as pessoas na França. Todos estavam doidos para voltar para o Líbano, mesmo com uma guerra acontecendo lá. Eu e a Ana concordamos com os libaneses: com todas as facilidades que existem na França, é muito difícil viver aqui por conta das relações humanas. No Brasil, por exemplo, as pessoas são mais calorosas. Jean-Luc disse que achava que as pessoas no Brasil eram muito invasivas. Não falamos nada, mas apesar dele dizer que prefere o modo francês, ele se casou duas vezes com estrangeiras e trabalha o tempo todo com estrangeiros…

Outra coisa que não concordei, foi quando conversávamos sobre o sistema de férias nos dois países, ele disse que nos países ricos se trabalhava menos que nos países pobres, que trabalhar muito seria uma característica de países pobres, se esquecendo que no país mais rico do mundo (ou pelo menos o mais poderoso), as pessoas têm férias de apenas uma ou duas semanas. O sistema francês de férias é uma exceção entre os países e não sei até quando eles vão aguentar isso, pois leva uma grande perda de competitividade global. Isto me lembrou que uma vez, diante do comentário de franceses que tinham ido ao Brasil de que a base dos nossos pratos era o arroz, um amigo nosso teria dito para a Hiroko que isso, comer “féculants” como base de alimentação era característica de países pobres… Esquecendo que no Japão a base é também o arroz… e que quando, durante a guerra, os japoneses ficaram sem arroz, eles tiveram que se contentar em comer… batatas… a base da alimentação francesa… que por acaso, também é um “féculant”. Isto me lembra uma frase que ouvi certa vez, os franceses viajam o mundo para voltar dizendo como a França é o melhor país do mundo…

Gare du Nord em saída de férias

Depois do brunch, sem o que fazer, resolvemos passar pelo mercado Saint-Quentin, mas, devido às férias de verão, não tinha quase nada. Fomos então à gare du Nord, ver quanto era a passagem para a Inglaterra. Bom, vocês sabem o que significa o primeiro fim de semana de um mês de férias para os franceses? Aqui todo mundo sai de férias. Ninguém quer ficar na sua cidade. Os franceses têm 5 semanas de férias por ano. O Sarkozy quer mudar isso, mas vai ser difícil mudar este hábito. Com o primeiro fim de semana de agosto, você tem os franceses que voltam de férias e os que saem de férias. Chegando na Gare, ela parecia um formigueiro humano. Filas imensas para qualquer coisa. A fila do eurostar era quilométrica… não precisa dizer que diante de caos tão perfeito desistimos de procurar qualquer coisa. Mesmo para pedir informação tinha fila. Outro agravante é o preço das passagens. Ir a Londres em setembro, quando acabaram as férias, custa 77 euros, ida e volta. Em agosto, custa 180 euros!

Pessoas na rua

O sol começou a sair e resolvemos ir ao centro da cidade, perto do hotel de ville (prefeitura). Chegando lá, comecei a observar as pessoas tirando fotos com o prédio como fundo. Comecei a fotografar essas cenas e as pessoas que estavam em volta…





Urbanismo em Paris

O que chama a atenção em Paris é a constante preocupação com o urbanismo, com o transporte, com o bem-estar das pessoas na cidade. Por exemplo estes jardins em frente à prefeitura.
Outro exemplo é a velib. O prefeito de Paris, assumidamente gay, está fazendo muito pela cidade. O anterior, Jean-Tiberi, estava mais envolvido em falcatruas, nada comparado ao que existe no Brasil, é claro. Das mudanças que vimos, estão a linha 14 do metrô e a velib. A linha 14 é super-rápida e cruza Paris de leste a oeste. A velib permite que uma pessoa alugue um bicicleta por um tempo determinado e passeie à vontade pela cidade.


Tem vários pontos na cidade em que você pode pegar a bicicleta e onde deixá-la, pagando 1 euro a cada meia hora. Se você usar menos de meia hora, sai grátis. Você, se quiser realmente economizar ou for pão-duro mesmo, pode ficar trocando de velib a cada 25 minutos e não pagar nada.


A Ana queria ir à missa nesse sábado, para que assim ficássemos livres no domingo. Vimos a hora da missa em Notre-dame. Era 18:30, neste meio tempo fomos para o Beaubourg, passear. Gostamos de ver a escultura cinética no Tinguely, em frente ao Beaubourg e também uma bandeira enorme, que fazia prédio do museu parecer um grande navio.

Na livraria do Beaubourg

Enquanto a Ana ia para missa, eu entrei no Beaubourg para olhar a livraria. Descobrimos que o Beaubourg é gratuito no primeiro domingo do mês.

Decidimos fazer o que nunca tivemos coragem de fazer: ir a dois museus no mesmo dia, Orsay e Beaubourg, e assim aproveitar a gratuidade. Fiquei algum tempo na livraria.

Não resisti e aumentei minha ignorância. Comprei mais um livro. Sobre a obra de Escher. Falei em aumentar a ignorância por causa de um texto do Millôr, que li há pouco tempo, em que ele dizia que quanto mais livros lia, mais aumentava sua ignorância. Em especial, ele contava a história, numa de suas mudanças, em que ouviu o carregador, ao pegar o pacote cheio de livros, reclamar, por causa do peso do embrulho: “Quanta ignorância!”, no que Millôr pensou: “Quanta sabedoria”, do carregador… Eu, do meu lado, continuo aumentando minha ignorância, lendo sobre buraco negros, geometria não euclidiana, fotografia, vídeo, arte contemporânea e tudo mais que eu me interesse. Aumento minha ignorância todo dia…

Para quem quer ver como Paris é cara, aqui está a loja TAKARA… Nem sei o que ela vende, mas o nome é sugestivo…

Passage du Désir

No mais, Ana achou uma igreja com missa mais cedo que Notre-dame. No caminho, na rue saint-Martin, perto da igreja e do beaubourg, Ana encontrou uma loja bem interessante. Uma sexshop diferente, sem vitrines escondidas, pelo contrário, com uma vitrine de bom gosto e onde as pessoas se sentem bem, sem constragimento. na volta da igreja, ela me contou sobre a loja e eu fui lá com ela. realmente, a loja é muito boa.

Diferente da loja do sexdrome, apesar de pequena, as pessoas não ficam constrangidas, a forma de organizar os diversos objetos é bem alegre, sem falsos pudores. Tem inclusive uma parte da loja que se chama: Les Sextoys expliqué aux nulles… Ou seja, os brinquedos de sexo explicados aos nulos… Na loja, a maioria era de mulheres e de casais, com vários brinquedos à disposição para serem testados (sem usar, é claro). Também, omnipresente, o famoso rabbit, do sex and the city, em vários modelos. Destaque para algumas brincadeiras, como o sabonete para “lavar todos os pecados”… ou os diversos óleos para massagens. Pelo que vi pela internet, os preços são mais baixos que no Brasil. mesmo não comprando nada, a loja vale uma visita, só para maiores de 16 anos, fique claro. Se compra mais de 175 euros, você pode pedir a détaxe, ou seja, receber de volta 15% do valor da compra. O chato, no caso desse tipo de loja, é ter que mostrar as suas compras na alfândega francesa, no aeroporto…

Esta rua tem bares para várias tribos. O bar atrás da Ana na foto seguinte é o da tribo de “ursos” gays…

Concerto gratuito na igreja

Para terminar o dia, fomos ouvir um concerto gratuito de música clássica, na mesma igreja que a Ana assistiu a missa. O concerto era com uma pianista e uma mezzo-soprano.



Muito bonito, além do mais com o ambiente de uma igreja antiga. Fiz muitas fotos, algumas vezes prejudicadas pela luz fraca da igreja. Mas valeu a pena. A cantora tinha uma voz maravilhosa e a acústica da igreja tornava a coisa mais mágica ainda. Para completar, de graça!

Voltamos para casa contentes, pelos belos momentos do dia. La vie est belle!

Este artigo ficou bem grande, talvez entusiasmado pela facilidade de escrever no novo micro. Podem não acreditar, mas colocar acentos em um micro com teclado francês no windows é um parto. No Linux é brincadeira de criança… Eu desanimava de escrever pela preguiça de colocar os acentos…

Fotos no picasa para esse artigo

~ por meiomegapixel em Agosto, 8 2008.

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