Dia 03 – Museus ou como é bom ter um tênis macio
Neste domingo estávamos preparados para a grande maratona de museus. No primeiro domingo do mês vários museus são gratuitos. Considerando que o ingresso custa em torno de 9 euros, para duas pessoas a economia pode ser substâncial. Mas é pesado… O Louvre já tínhamos visitado, então, dos grandes, faltavam apenas o Orsay e o Beaubourg. Começamos pelo Orsay. O dia estava nublado e caía uma pequena garoa.
Coelho rosa
No caminho, no metrô, fotografei a porta. Não sei porque cargas d’água, o adesivo nas portas do metrô alertando para o risco de ficar com a mão presa é este coelho rosa. Uma das coisas mais engraçadas que vi no programa trash “jack ass” foi um cara vestido de coelho rosa, no metrô de Paris, fingindo que estava com a mão presa.
Primeiro round: Orsay
A fila do Orsay estava enorme, mas, surpresa, andava bem rápido. Na realidade, como as pessoas não têm que pagar, uma fila enorme no dia gratuito pode andar mais depressa que uma fila pequena num dia pago. Cronometrei e demoramos 19 minutos para entrar. Muitos orientais na fila e dentro do museu.
Por que tanta gente nua?
Tinha perguntado se a Hiroko aceitava ser fotografada nua por mim. Ela perguntou por que tanta mulher nua nos meus trabalhos… Ora, basta andar pelo Orsay e ver que boa parte das obras tem gente nua. Por que? Sei lá. No meu caso é que acho agradável ver a forma do corpo, especialmente mulheres. Tenho esse problema genético: meu cromossoma Y me faz gostar de ver mulheres nuas. Não é nada sexual, mas o prazer de ver, simplesmente. Afinal, é bonito mesmo. Na maioria dos quadros e esculturas as pessoas estão nuas sem nenhuma razão específica. Estão lá apenas porque é bonito ou para chocar (épater la bourgeoisie). Este quadro, por exemplo, que representa o último dia de Corinto (Le dernier jour de Corinthe, Robert-Fleury avant 1870). Por que as mulheres estão nuas? No Louvre tinha um quadro enorme representando a batalha de termópilas, de Jacques Louis David (gregos contra persas, como no filme “300″), meio gay, com os soldados nus. Por que?
Mesmo não tendo nada a ver com a realidade, torna as obras mais interessantes.
O Cristo gay
O caso mai estranho de nudez no Orsay é este “Cristo Gay”. Bom, na verdade este é o título que eu dei ao quadro. Ele se chama “A escola de Platão”, mas não dá para negar que a figura central parece muito com as representações de Cristo e que tem 12 mancebos nus em volta… Minha teoria de historiador da arte de fim de semana é que o pintor fez este cristo gay, mas quando as pessoas viram e ficaram chocadas, ele mudou o nome para Escola de Platão e tudo ficou bem, afinal era na grécia…
Gente, gente e mais gente
As salas dos impressionistas e de Van Gogh estavam apinhadas de gente.
Vimos primeiro as salas da exposição temporária, sobre as primeiras fotografias em papel. Os franceses, com Daguerre e Niépce inventam o processo fotografico no final da década de 1830, mas são os ingleses, com Talbot, que criam o negativo que permite a reprodução da foto em papel. O interessante desta história é que o governo francês pagou uma pensão a daguerre e à família de Niépce para que abrissem mão da patente do processo fotográfico e isto permitiu a difusão da técnica. Na Inglaterra, os amigos acabaram convencendo Talbot de que ele estava retardando o desenvolvimento da fotografia com sua patente e ele também abriu mão. Por mais que se defenda as patentes hoje em dia, vemos como elas podem ser um entrave ao desenvolvimento científico. Isso eles já sabiam no século XIX…
Outro quadro que ainda chama atenção é a Olimpia de Manet. Pela primeira vez, numa pintura, um nu é exposto sem a desculpa de ser uma figura grega mítica. Fez grande estardalhaço na época.
Infelizmente a sala de Courbet estava fechada e não pude fotografar a “origem do mundo“. Muita gente pensa que o quadro é enorme, por conta de algumas reproduções que exageram sua dimensão. Mas ele deve ter apenas uns 40 por 50 cm.
Comendo antes do Beaubourg
Saímos do museu para comer e depois ir para o Beaubourg. Em 2006 tínhamos almoçado num bom restaurante finlandes atrás do Orsay, chamado “Le Café des lettres”. Demos azar: fechado para férias. resolvemos, de guia na mão, comer em algum restaurante perto do Beaubourg. Outra vez azar, cada restaurante do guia estava ou fechado para férias de agosto ou fechava aos domingos. Já cansados de procurar, optamos pelo mais simples: almoçar no flunch. Uma opção mais popular e barata. A comida não é grande coisa, mas é melhor do que comer sandubas ou macdonalds (que eu nunca entro. última vez que comi num macdonalds foi em 1996, com um amigo, em Versailles, pois os restaurantes universitários estavam fechados e o Mac era a única opção que ele gostava). A comida estava correta, mas poderia ser melhor. O Flunch é uma rede e tem um restaurante perto do Halle.
Bem alimentados, fomos encarar a fila do Beaubourg, muito maior que a do Orsay, mas, milagrosamente, mais rápida. Entramos em 9 minutos!
O mendigo fotógrafo
No Beaubourg adorei uma exposição de um fotógrafo tcheco, Miroslav Tichy. No início achei tudo meio tosco. Pensei que era mais um fotógrafo que fazia fotos mal-acabadas apenas para ser diferente. Tudo mudou de figura quando fui conhecendo a vida dele. Na verdade, ele era um mendigo que andava pelas ruas e gostava de fotografar as mulheres na piscina pública. Ele usava máquinas que ele mesmo fabricava, improvisando lentes em plexiglass ou usando máquinas velhas. Tirava 3 filmes por dia, umas 100 fotos, durante 5 anos. Depois ele parou. As pessoas pensavam que ele apenas fingia tirar fotos, pois seus aparelhos eram como brinquedos, alguns remendados ou de papelão. A partir dessa história, dá para ver sua obra com outros olhos. Ele não é apenas alguém querendo ser diferente, ele é autêntico, faz o que gosta, fotografa pelo prazer de fotografar ( e de fotografar mulheres na piscina…) No final, ele criou sua própria estética. Única na sua loucura. Hoje ele tem mais de 80 anos e espero tenha saído das ruas. No final, sua obra emociona.
Wifi
Em volta do Museu, uma zona wifi, com várias pessoas usando o notebook na rua. Nesse ponto, que inveja! Quando alguém poderia aproveitar um wifi no parque do flamengo sem se preocupar em ser roubado. Aliás, aqui tem várias redes wifi livres. Agora mesmo, eu escrevo na casa da Inês usando a rede aberta, sem pagar nada.
Damasceno
No acervo do museu obras bem importantes de arte contemporânea. Gostei desse “beijo” claramente inspirado no filme “a casa vazia”.
Outra surpresa foi encontrar no museu uma obra do Damasceno, doação do Gilberto Chateubriant.
Bela vista
Da sacada do museu, uma bela vista de Paris…
Jean Gourmelin
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Quando estávamos terminado a visita, a Ana estava cansada, mas eu ainda estava em forma. Meu tênis, bem macio, funcionou bem. Comprei este tênis em Copacabana e custou apenas 70 reais, mas é melhor que muoto tênis das grandes empresas (a marca dele é Dharma e é fabricado no brasil mesmo). Meus pés estavam perfeitos e ainda tive energia para ver uma pequena exposição de desenhos de imprensa, meio surrealista, muito legais. O universo de Jean Gourmelin.
Hiroko
Quando finalmente íamos para casa, Hiroko ligou. Tinha chegado de viagem e tinha trazido um queijo de savoie e vinho para nós. Perguntou se não queríamos ir na casa dela para comer. Ela tinha ficado uma semana viajando pelos alpes com dois amigos. Óbvio que aceitamos, ainda procuramos pão para acompanhar o queijo (Hiroko não come nem pão nem queijo), mas não encontramos. Acabamos comendo o queijo com torradas, mais um pouco de vagem cozida que ela tinha preparado, acompanhado por um vinho branco da região de Savoie. Ficamos até umas dez e meia no apartamento dela, pois a Ana estava bem cansada. Conversamos muito, ela contando as histórias da viagem, enquanto víamos as fotos. Aproveitei para tirar umas fotos em Infravermelho dela. Vai para minha coleção de fotos de veias. Com o infravermelho conseguimos ver debaixo da pele, assim as veias ficam à mostra. Voltamos para casa de metrô, que era mais rápido. Sempre que podemos usamos o ônibus, para poder ver a cidade, mas a vontade era de chegar logo em casa e domir. Sobrevivemos a dois museus num só dia!
Fotos no picasa para este artigo
Mt legal o blog de vcs! São o orgulho da família! UAU!!!Que fotos , mt maneiro! Mandem bjs pro Ruie Manu. Vou mostrar para mamãe as atualizações, bjsssssssssss
Gente,
o blog está o máximo!
Especialmente as descrições dos sex-shops. Postem mais sobre isso!
Beijos,
Margo
Também adorei! Agora vou procurar as descrições dos sex-shops, imagino que são de outro dia.
Só uma coisa que nao entendi, como assim, ‘não é nada sexual’?
Oi Margo, eu sou burra mesmo hein? Agora que eu entendi, os sex-shops são os museus! Isso mesmo, concordo plenamente, e viva os museus, a vida, etc, etc.
Lourdinha, as descrições dos sexshops estão nos artigos anteriores. No sábado, dia 2 e sexta dia primeiro de agosto.
Quanto ao “não é nada sexual”, é em relação à apreciação do nu como estéticamente belo. A beleza do corpo humano não é ligada necessáriamente à excitação sexual. Acho tanto o corpo feminino quanto o masculino belos e as roupas podem atrapalhar esta apreciação. Prefiro o corpo feminino nos meus trabalhos, e quando preciso de um corpo masculino, uso o meu mesmo. Aí entra o componente cultural de gênero: me sinto mais à vontade diante de uma mulher nua quando fotografo, apesar de não sentir nenhum prazer sexual nesse momento. Consegui me explicar?